Wednesday, May 29, 2019

O imperativo do sofrimento x ode ao riso


Tem gente que parece que, quando desceu à Terra, veio com uma ordem expressa: - não aceite ser feliz. Rir é um ato obsceno. Se você quer agir corretamente, reclame de tudo à sua volta. Caso você veja que tem alguém se engraçando pela vida, dê logo um jeito de estancar essa sangria pecaminosa chamada alegria.

Rir, atualmente, é até mesmo um ato político. No Brasil, vivemos uma linha tênue entre princípios, um confronto maniqueísta que antes era tácito, mas que as redes sociais tornaram bastante evidentes. Acho que nos anestesiamos no riso – materializado pelos famigerados memes (piadas que viralizam online). E nesse assunto eu chego no que eu chamo de coerência do riso. Há memes de todos os lados, de todos os espectros ideológicos mas, por mais que a piada seja bem elaborada, se se discorda da mentalidade do autor e do que ele representa, é quase um crime contra si mesmo rir.

O riso já foi um passaporte para a morte, pelo menos na ficção – se é que seja exclusivamente ficção - como genialmente escancara o clássico “O nome da rosa”, de Umberto Eco (livro que originou filme homônimo). Na obra, acontecia algo curioso quando algumas pessoas liam certos livros. Sumariamente, os leitores morriam. O motivo era mais curioso do que o fato. Os livros que faziam rir eram os letais. Todos que provocavam uma gargalhada, tinham uma dose de veneno, como punição ao leitor que se deleitava em sorrisos provocados pelas histórias.

Eu não tenho muita clareza para quê desci neste mundo. Mas eu posso ter certeza de que um dos meus imperativos é rir. Achar graça, sabe? Procurar a graça. Ir fundo no assunto para poder, cada dia a mais, ter motivos para rir. Eu rio dos outros, com os outros, pelos outros, mas, principalmente, por mim, e para além dos memes, meu jeito favorito de sorrir é presencial, ouvindo o riso do outro.

Tuesday, October 23, 2018

Epítome


Sempre me apaixonei por palavras que acabara de conhecer cujos significados eram conceitos ou acepções extremamente interessantes. Foi assim, há um tempo, quando procurei o que era “resiliência”. Virou um mantra a ser repetido. Com menos carga sentimental e mais humorística, uso muito as palavras “incólume”, “empírico”, “insólito” e ”inóspito”. Lembro-me de um dia ter respondido a uma colega de trabalho que não havia encontrado o livro que ela tinha me pedido emprestado porque habitava um lugar inóspito do meu guarda-roupas.

Recentemente coloquei no meu rol de xodós a palavra epítome. Sua acepção é a seguinte: o que resume, simboliza, serve como modelo ideal de. Gostei bastante do significado. A partir desse conhecimento, fui viajando por quanta epítome tem espalhada por esse mundão. Mas também pensei que cada nova epítome pode ter uma parcela bastante subjetiva. É uma palavra que depende do indivíduo que a aplica. Por isso, fiz a minha própria lista de epítomes.

Praia (com sol) é meu epítome de passeio; escrever é meu epítome de meio e objetivo de vida; família é meu epítome de suporte; amizade é meu epítome de diversão; futebol é meu epítome de esporte; um bom filme ou série é meu epítome de aconchego; endorfina é meu epítome de euforia; humorizar a vida é meu epítome de escape – e também de inteligência; Woody Allen é meu epítome de bons diálogos; conhecer é meu epítome de evolução; fé (em seu amplo sentido) é meu epítome de conseguir; meu noivo é meu epítome de amor.  

E para você, quais são seus epítomes?


Dentro ainda da magia das palavras, indico o texto “Palavreado” muito interessante de Luís Fernando Veríssimo em que ele brinca também com os vocábulos da língua portuguesa.  A tônica é inversa, o escritor pinçou palavras incomuns e desenvolveu o texto com significados que ele pensava combinar mais com a ortografia e fonética. Ele desenvolve um conto utilizando substantivos comuns para nomear substantivos próprios. Vale a leitura lúdica!


Tuesday, March 6, 2018

O fim: um novo começo



A vida (re) começa o tempo todo. E termina. E começa. E termina.

O exercício do viver é cíclico. Se por um lado, sofremos com o fim, no outro extremo, nos alegramos com o começo. Mas o vice-versa também vale. Podemos nos alegrar – aliviar – com o término, bem como nos entristecer com um início – de algo indesejado. Ou podemos, ainda, começar odiando o término e acabar amando tanto o novo começo que o fim se torna alegre, numa reinterpretação metafísica da própria existência.

As palavras e conceitos Começo e Fim têm seus significados macro e micro. Geral e particular. Genérico e específico. Aplicam-se, em amplo sentido, no nascer e morrer do corpo, mas também são vivenciados durante toda a vida. A cada fase individual de todo ser humano.

Fim e Começo são intrínsecos ao ato de existir. Nas minúcias, miudezas e nuances e nos grandes atos de eloquência da vida. O movimento da Terra em torno de si mesma já crava um começo e um fim diários.

Na condição de perene insatisfação – do querer mais, melhor e diferente – demasiadamente inerente ao ser humano, começa-se a todo momento: uma dieta, um esporte, um curso, um hobby, uma amizade, um relacionamento, uma aproximação, um projeto, uma construção (concreta ou abstrata), um encontro, um livro, um filme, uma série, uma religião, uma filosofia, um estilo, um contrato. A palavra começo agrega em si várias outras como: desafio, novidade, oportunidade.

O fim já vem com uma carga diferente. Mais pesada, sofrida, penosa. Mas não tem que ser assim. É bom se lembrar que só veio um começo porque o fim o viabilizou, na mesma lógica de toda escolha é uma perda. E nada disso tem que ser ruim. Sofremos – em grandes e pequenas proporções – a vida toda porque depois disso, vamos ter o que comemorar, nem que seja o aprendizado com o fim ou começo de algo.

Eu mesma tenho dificuldades com encerramentos – dos mais fugazes aos que causam maior impacto. Dias atrás sofri porque estava apegada a uma série da Netflix e assisti todos os capítulos. Noutra visão, ficaríamos incompletas (eu e a série) se não concluísse os episódios. Também fico chateada no último dia das minhas férias, mas elas só existem porque tenho um trabalho a começar todo novo dia. Durante toda minha infância, sofri quando ia mudar de cidade. Mas fui feliz nos novos lugares onde fui. Fico incomodada quando um campeonato acaba, no último dia de aula de um curso, no último dia de serviço num emprego.

E, em última proporção, entristeço-me profundamente com o fim da vida de alguém muito importante, mas sei também me alegrar pelo alívio do sofrimento e, com minhas crenças, ficar feliz com o novo começo depois da morte.

Também tem os fins ansiados. Geralmente são os que vêm travestidos de conclusão. É ótimo finalizar algo que estava em curso: uma monografia, um trabalho, uma fase, um jogo, uma tarefa, um prato. Mas até mesmo esses términos deixam um vazio, um espaço no tempo.

Uma das minhas artistas nacionais favoritas, Fernanda Torres, dedicou um livro inteirinho ao título e temática dessa curta palavra: Fim. Como lhe é peculiar, ali, esse tema espinhoso, e que às vezes preferimos deixar debaixo do tapete, é tratado com muito bom humor e com viés inusitado. Vale a leitura.

Naturalizemos o fim. Ele vai existir. Vai permear constantemente nossas vidas. Não porque viemos sofrer, mas porque viemos aprender, evoluir e prosseguir com progresso.

E esse texto acabou, para os que chegaram até aqui pode ser um fim penoso (se não gostaram) ou gratificante (se curtiram). Ou ainda, se achou bom e terminou, pode achar ruim porque acabou, neste caso, alegre-se, vai ter muito mais. Tudo é interpretação e reação.

Wednesday, January 17, 2018

Sentimentos correlatos


De um surge o outro. De um ato, um fato, um retrato: do momento. Um sentimento, que puxa outro e outro e outro numa cadeia sem fim e com muitos elos.

Nenhum sentimento é isolado ou se estanca em si mesmo. É uma rede elástica de conexões e construções. Talvez a premissa do se sentir como um ser humano, com suas virtudes e vícios, passa, principalmente, pela alteridade.

Como uma ação e reação intermitente, a vida é um fio da meada que provoca, instiga e conecta pessoas; atitudes e consequentes sentimentos.

Nessa edificação humana vemos o nascer, crescer e, ao invés de morrer, transformar dos – bons e maus – sentimentos.

Para os bons, comecemos com a afinidade. Essa, em grande parte das vezes, é o início de tudo. Afinidade vem junto com compartilhar: uma visão de mundo, um projeto político, um sonho de viagem, um gosto pessoal, uma paixão por um time, uma prática de esporte, um diretor de filme, uma banda, uma combinação de signos, uma energia, que seja. É algo importante seu ou para você, mas que você também enxerga no outro.

Da afinidade, o caminho se encurta. É o primeiro passo de uma amizade, que é um formato de relação onde cabe uma gama longa de sentimentos correlatos. Amizade vira amor, facilmente. Podemos amar nossos amigos e ser amigos dos nossos amores.

Da afinidade: a paixão, o encantamento, o querer estar, passar e permanecer – verbos que traduzem sentimentos. A amizade. O amor.

Por outro lado, a falta dela pode ser também o começo de uma construção de sentimentos correlatos que não perpassa por caminhos tão pueris e bonitos. Dessa ausência, somada a uma pitada de egoísmo e apatia com o próximo e com o mundo, vem a intolerância - o discurso do ódio. O mal instaurado.

Talvez a transformação de sentimentos que realmente precisemos é a alteridade desdobrada em empatia. Para essa, toda forma de redenção.
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Alteridade: Do latim alteritas ('outro') é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o ser humano social interage e interdepende do outro.




Friday, September 22, 2017

Doses homeopáticas, resultados em grandes proporções



Já li que a felicidade é diferente da alegria. A felicidade é um compilado de coisas, que envolve um combo de ganhos, mas perdas também. É um sentimento maduro. Por isso, quando me perguntam: “tá feliz?”, eu respondo: “sempre!” Não que eu viva em êxtase ou que não tenha perdido muito neste percurso. A cada notícia que leio, a cada jornal que assisto, a cada conversa que escuto no ônibus ou no metrô, ou em algumas situações que eu mesma vivo, tenho motivos para ver o quanto o mundo anda perdendo, e, com isso, eu também.

Seriam as notícias a metalinguagem da vida? Seria a vida pensando – agindo - o ato de existir, do ponto de vista prático e não do teórico? Como a filosofia, que é uma instância diferente de metalinguagem da vida, no campo da reverberação de hipóteses, ou seja, da teoria. A verdade é que o fato impulsiona teorizarmos o viver e fabricar fatos futuros diferentes para nós mesmos. 

E se a realidade fosse nossa ficção e vice-versa? Nosso noticiário parece escrito por roteiristas. Só para pinçar um exemplo atual e polêmico: um juiz voltou à tona o absurdo do tratamento da homossexualidade como doença. Se me falassem que era uma sinopse de um filme de ficção científica, eu acreditaria, de pronto. Mesmo que achasse um roteiro muito do viajadão.

Estão acompanhando, gente? Vamos juntos, porque estou com medo de me perder também.

Neste contexto, podemos fabricar pílulas de alegria instantânea para nos medicar contra o mal estar que nos está posto. O que te faz sorrir? O que te causa sensação de leveza? O que te leva ao êxtase? O que te gratifica? Vai de cada um. 

Pode ser fazer uma caminhada observando a paisagem. Ou entregar um trabalho bem feito pro chefe. Ou comer várias fatias do seu sabor de pizza favorito. Ou jogar bola. Vocês que estão me lendo jogam bola? Senão, indico uma primeira vez que seja. É uma das coisas mais gostosas dessa vida: a endorfina. Ou encontrar seus amigos de infância e relembrar o tempo juntos. Ou escutar música bem alta no transporte público ou caminhando. (quando alguém me vir nesta situação, nem queira saber o que tá tocando). Ou sair com aquela turma que tem ‘liga’ e se diverte em qualquer programa. Ou cozinhar pros seus pais. Ou mesmo aquele respiro no ambiente de trabalho em que falam sobre amenidades. Ou ajudar alguém sem interesse. Ou rir até sair lágrimas e doer a barriga. Ou ficar fazendo nada ao lado da pessoa que escolheu para passar a vida com você. 

Recomenda-se, no mínimo, da inserção na sua rotina diária de uma pílula diária de alegria - à sua escolha. Não precisa aproveitar com moderação. São doses homeopáticas que, somadas, causam um efeito duradouro. 

E para você que chegou até aqui, me deu uma pílula de alegria. É gratificante ser lida. 

P.S.: Essa é mais uma ideia dentro do metrô. Acho que posso pensar num novo local de processo criativo. 

·         Metalinguagem: A metalinguagem é uma forma linguística na qual o código fala de si mesmo. Essa prática pode ocorrer em diversos meios artísticos.

Thursday, May 11, 2017

É melhor ser real ou ter razão?



Não é o tempo que nos muda. Mas os fatos que os perpetram. A maturidade não vem com o tempo, ela vem com o que nos acontece durante esse tempo. Não é o tempo que nos faz gostar ou desgostar de alguém. Mas as ações deste para conosco. Não é o tempo que cura, mas o que nos acontece neste tempo, para ocupar e ajudar a superar.

Todas essas constatações, óbvias ou não, ensejam a um raciocínio correlato da importância do fato, da verdade e do acontecimento na vivência humana.

Do que nossa memória é constituída? Dos fatos escritos no tempo. Das verdades que passaram em nossas vidas. Embora também, cada memória de uma pessoa seja uma ficção individual elaborada por si mesmo. É a interpretação de cada um sobre as verdades que se passaram. Mas é sempre sobre verdades.

Ilustra bem essa relação o atemporal filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, onde os personagens buscam um tratamento que permite uma borracha mental para o que se deseja esquecer. Às vezes, os fatos pregressos e as verdades passadas incomodam. Por serem verdades que aconteceram.

Em tempos de pós-verdade, essa reflexão vem a calhar para sublinhar a gravidade dessa tendência de deturpação da realidade. Não querem ter verdade. Querem ter razão. Quando devíamos querer ser felizes. Na verdade da razão.

A pós-verdade parece uma conspiração cósmica dos mimados que, não tendo razão, pretende fabricá-la a seu bel prazer. Não interessam os fatos, mas o que corrobore no que querem acreditar.

Quando não confiamos na nossa memória, o comum é recorrer aos registros. E quando não se pode confiar nos registros?

A pós verdade é, talvez, um desbotamento da realidade, que se esgaça até que os fatos fiquem diluídos numa interseção fluida do que se é ou do que se quer que seja.
  
·         Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Wednesday, February 22, 2017

Uma dose, por favor




Como uma brisa leve que revigora com um quê de Boas Novas, vem invisível, mas nunca imperceptível.  Atenção! Este texto não tem a pretensão de implantar a ditadura da felicidade, mas de propor soluções mentais para tempos difíceis.

Há quem diga que apenas os impensantes ainda levam como mantra o otimismo. No mesmo sentido, estudos sinalizam que a depressão acomete os menos alienados ou, como constam nas matérias jornalísticas sobre o tema, os mais ‘inteligentes’. 

O otimismo é uma questão de interpretação. De carga de significância que se dá a uma situação passada, presente ou futura. É uma versão adotada para a leitura do que está proposto.
 

A já batida - porém não menos valiosa - pergunta cuja resposta desvela a tendência filosófica de cada um: como você enxerga o copo preenchido com metade de líquido? Meio cheio ou meio vazio?, também abre margem para outros raciocínios: a apatia é produto da resignação ou do comodismo? É um pecado às dores do mundo manter o bom humor e a alma leve nas conjunturas mais adversas? É ingenuidade ser flexível diante da intransigência?  
  
“O pranto só serve para chorar” ou, parafraseando, o pessimismo só age no ruir da circunstância. O pessimismo, além de não ser uma ferramenta útil de pensamento, é uma sensação de tormento perene em quem acomete. É como um impermeabilizante que impede as boas energias de penetrarem. É aquele comentário inoportuno tramando que as coisas dêem erradas, nem que seja para se ter razão. É aquele descolorir da vida. É a água do chopp. É a areia do olho. É o amarelar o sorriso do (s) outro (s). É a urucubaca. Como uma praga que tem sua razão de existir, tem quem transmita, contamina e mata - nem que sejam as esperanças.  

Além do mais, é um distúrbio que desencadeia outros maiores e mais sérios, de difícil tratamento. O pessimismo é um mal em si mesmo, a si mesmo e respinga no próximo, quanto mais próximo ele esteja.

Talvez esse apego ao impalpável otimismo se justifique por uma ciência, não muito famigerada, mas encantadora, denominada patafísica, cujo conceito também pode ser traduzido no seguinte: o absurdo do existir precisa de alguma explicação ou sensação que o justifique. Por mais paradoxal que isso seja. Ou absurdo.

No fim, não há poder resoluto que emane do otimismo. Não soluciona situações, mas oportuniza que você passe pelo pior com vistas no melhor, que pode vir ou não. Mas é bom saber que o ideal existe. 

Tal como a função da utopia, cujo real significado está intimamente ligado ao inatingível, porém, quando a temos em nosso horizonte, revigora o fôlego para seguir. O que vale é o caminho, não o destino. Nos vemos lá.