Thursday, October 30, 2014

Do lado de dentro

Resiliência. Desde que conheci o significado dessa palavra, introjetei-a no meu imaginário, sem me desapegar dela. Usaria quando fosse necessário. Era o meu curinga. E todo ser humano que se deixa ser humano vai precisar recorrer a esse imponente vocábulo em determinada(s) etapa(s) da vida.

O senso comum que dita que a nossa felicidade é conquista individual, talvez seja uma das únicas verdades absolutas da vida. Ser feliz tem como lastro movimentos muito mais internos do que externos.


Para absorver bem os pulsos positivos que os acasos da vida nos oferecem, o nosso introspectivo deve estar afiado. Assim como a mãe precisa estar preparada para gestar um bebê; como a terra deve estar arada para que as raízes cresçam; como a vela do barco deve estar na posição certa para chegar ao destino almejado.

Nessa mesma lógica, nós precisamos estar com o coração limpo e leve, com a mente em plena atividade, com as sinapses acontecendo de forma efetiva e harmônica para que, consequentemente, as boas possibilidades que a vida nos proporciona sejam apreendidas com todo fulgor. O sorriso é nossa grande assinatura, mas é bom lembrar que, os sinceros, que estampam nosso rosto, vêm do lado de dentro.

Imbuída da frase que eu mesma fiz para ser meu talismã – nunca estou sozinha, tenho minha cabeça e meu coração – busquei nas minhas referências exemplos - ficcionais ou não - que endossassem todo essa delonga de raciocínio. Me lembrei de vários filmes aos quais assisti, livros que li, músicas que ouvi e, em vários casos, reconheci peculiaridades que aproximaram personagens e eu líricos da minha idiossincrasia.

Para indicar alguns: Sofia, que tinha um mundo todo dentro de sua imaginação (O mundo de Sofia – Jostein Gaarder); Andy Dufresne (Tim Robbins), de Um sonho de liberdade (1994) que aturou anos numa prisão, onde ficou, injustamente, sofrendo mazelas de alto grau, porque tinha dentro de si utopias tangíveis. Ou ainda o protagonista do fantástico ‘Peixe grande e suas histórias maravilhosas’ (2003 – Tim Burton), que, em suas fantasias, vivenciava seus mais valiosos sonhos.

A mistura dos conceitos resiliência e felicidade neste texto foi proposital. São termos que tem relação sucessiva: primeiro a resiliência, depois a felicidade, embora os dois também possam caminhar lado a lado.


 Dica musical da vez: Mantra - Nando Reis 

Wednesday, August 13, 2014

Relativizar é preciso


Se eu pudesse dar um conselho a todos vocês, não seria ‘Use filtro solar’, pois não sou o Pedro Bial. Minha admoestação seria: não faça das palavras ‘nunca’ e ‘sempre’ vocábulos de uso para as suas falas. Esses dois advérbios, na maioria das vezes, fazem de nós mentirosos irremediáveis.

Pois o que achamos ser, pode não ter nada a ver com o que realmente é. O universo que nos habita só tem uma regra: todas as afirmativas dependem de ponto de vista, de contexto em que estão inseridas e da bagagem do opinante. As fronteiras que separam dois extremos são linhas extremamente tênues.

Tudo – e neste tudo abrange tudo e o todo mesmo - depende da interpretação que se faz, podendo esta variar de um extremo a outro numa facilidade incrível. As impressões sobre o mundo, as coisas, as situações, as pessoas, os conceitos etc, são pontos subjetivos, fincados num terreno vulnerável. Por isso, os contrastes e discrepâncias tão comuns na vida.  

Para ilustrar essa alternância de polos e caminhando para o âmbito do cinema,  a classificação de gêneros de filmes também é passível de leituras. Produções categorizadas como drama clássico, podem facilmente ser chamadas de dramalhões ou melodramas; o terror mais horripilante pode pecar pelo excesso e punir para o lado do burlesco, virando uma comédia de mau tom; e há quem diga que as mais agitadas obras de ação são entediantes. Assim como o chique se torna brega; o carinhoso se torna pegajoso; o perto também é longe; o irretocável, cheio de defeitos e lacunas; a eficiência vira o despreparo; e o fato, boato.

Tais divagações introduzem muito bem um paradoxo que se singulou em dois episódios dos últimos dias.

Apesar de entender o assunto como de suma delicadeza e sensibilidade, impossível não estranhar dois profissionais, que fizeram da comédia a via para ganhar dinheiro, cometerem suicídio - o pior ato contra si mesmo. Os falecimentos de Robin Willians e Fausto Fanti são, pessoalmente, lamentáveis. Cada um, ao seu talento e guardadas as proporções, constitui o meu universo de personagens referenciais.

Robin Willians me arrancou risadas não só em diversos papeis de comédia como também em suas entrevistas sempre descontraídas e bem humoradas. O ator também me inspirou e incitou reflexões em trabalhos como o psicólogo Sean McGuire, de Gênio Indomável e o professor entusiasta das ideologias libertárias, em ‘Sociedade dos Poetas Mortos’. E ainda mais paradoxal foi a interpretação de Robin Willians em ‘Patch Adams - o amor é contagioso’, encarnando um personagem que revigorou milhares de corações de espectadores, promovendo verdadeira aula de valorização da vida.

Os que nos fazem rir podem ter a tristeza dentro de si. Assim como a essência da figura do palhaço, que faz graça para esconder sob maquiagens e piadas as fragilidades que os habitam. Parece que estão fadados a um destino traçado por um alguém que preza pela ironia.

Em outra instância, mas ainda com relação aos dois casos supracitados, quanto mais se reverbera o existencialismo, confrontando-o com o contexto da realidade atual, maior chance de flertar com a depressão. Isso explica a doença, o incontestável mal do século, acometer grandes gênios da humanidade. Soa como incoerência, mas é a vida como ela é.

Nesse universo de correlações difusas, de certezas contestáveis, de desconstrução de verdades absolutas, o melhor é colocar um óculos que maximiza o lado otimista das coisas e seguir com um sorriso estampando o rosto; o riso alegra a alma e os entornos. O pranto só serve para chorar e gastar lágrimas.

Hino guia da realidade vigente para ouvir diariamente: Bola pra frente - Maria Rita

Vídeo do Palhaço Gozo, não foi porque ele morreu que assisti ao vídeo, sempre revisitava esses quadros no sense.






Tuesday, April 15, 2014

O Retrato de Dorian Gray é o retrato da sociedade contemporânea

Oscar Wilde escreveu no século XIX um livro de uma contemporaneidade estarrecedora. Um dos maiores autores irlandeses inspirou gerações de leitores e, agora, influencia cineastas e espectadores. Portanto, não foi surpreendente que o diretor Oliver Parker tenha dirigido um longa metragem (2009),  homônimo ao livro.

Não sei se Oscar Wilde tinha a pretensão de ser um visionário, mas, enxergo a lucidez da sua obra quando se compara ao que se vive na atualidade. Por isso é que o filme veio a calhar nos anos 2000. Para um espectador menos afiado, a obra pode não passar de um suspense psicológico ordinário.

Porém, fiz a leitura - que pode muito bem ser equivocada – de que o filme não se atém ao fato do protagonista Dorian Gray, vivido por Ben Barnes, entregar a sua alma ao diabo para ter eternamente uma aparência bela e jovial. Entendo, principalmente pelo tom do livro que inspirou o longa, que se trata de uma metáfora dialética sobre o culto às aparências, uma ode à vaidade humana que, quando em grandes proporções, é perniciosa não só a quem a detém, como também para os que rodeiam o vaidoso.



Nesse sentido, a temática de ambas as obras versa sobre a superficialidade do comportamento (des) humano. Aquele indivíduo calcado no hedonismo, que apenas mantém relações superficiais, agindo de forma obtusa e leviana, com interesses individualistas que suplantam sentimentos alheios.

Um reflexo ainda mais lastimável da sociedade dos dias de hoje é que antes, como defendia Maquiavel, para homens de grandes responsabilidades, alguns desvios de conduta em prol de um objetivo nobre, era aceitável. A situação se banalizou de tal maneira que, por quase nada, estão metralhando deslealdades, quase sempre por interesses egoístas. A grande maldade começa em suas pequenas manifestações. O estilo vil de vida anda em alta, que ele não se torne via de regra.
   
Destaque para o jogo de elementos cênicos do filme. No sótão onde Dorian isola o seu retrato pintado, há, ao lado do quadro, um espelho. Sempre que ele observa a pintura, em contra ponto, ele olha para o espelho e enxerga a inexorável discrepância entre o que ele aparenta ser – estampado em sua bela imagem refletida no espelho – e o que a vida e suas atitudes fizeram dele: um verdadeiro monstro. Sublinho também a atuação do manipulador amigo de Dorian, Harry (Colin Firth), que, por ironia da estória, provou do seu próprio veneno, personagem tão brilhante como quando protagonizou, um ano depois, o Discurso do Rei.

É nessa toada que vou concluindo, apesar de ainda ter muito o que dizer sobre esse enredo digno de obra prima. As analogias que pululam na mente ao assistir o filme são muitas. Dorian é perfeito em sua aparência, assim como a pintura que lhe foi feita, mas também como o quadro que o ilustra, ele é apenas aquilo: a superfície. Não há nada por trás. Nem por dentro. A imagem de Dorian estava construída, ao contrário de sua integridade, que foi minando até inexistir, maldade depois de maldade.


P.S.: Apesar de todo pessimismo escancarado na crítica, ainda é prudente – ou inocente - acreditar na potencialidade do ser humano em ser bom. Muita coisa que a vida me traz, sinaliza isso. 

Wednesday, March 5, 2014

Bem interessante para uma ficção


Mais estranho que a ficção (Marc Forster, 2006) tem como mote a metalinguagem. São várias as manifestações desse conceito dentro da obra, configurando um espiral de metalinguagem no qual existem muitas formas dessa propriedade linguística, de maneira que uma circunspecta a outra.

Para sintetizar, o filme é o resultado do que se passa no livro sobre a vida do protagonista Harold Crick (brilhantemente vivido por Will Ferrell), bem como a descrição do processo de produção literária e fílmica. Esclarecendo, o longa é o produto final dessa miscelânea de situações metalinguísticas. E a todo instante, durante esse processo de construção de estórias (que na verdade é uma só) o código linguístico refere a si mesmo, ou seja, o filme fala do filme, a autora fala de seu livro, Harold reflete sobre sua vida: a metalinguagem é intrínseca a todas instâncias da obra.

A grande diferença desse filme para outros roteiros adaptados de livros, é que, nesse caso, as tramas do livro e do filme acontecem senão ao mesmo tempo, quase simultaneamente, dentro do mesmo tempo espaço e dispositivo comunicativo. Uma influencia a outra, uma exerce função na outra, existe relação de causa e efeito entre ambas, de forma instantânea. O final de um depende do desfecho de outro. E o fato de essas relações serem explicitadas durante o tempo fílmico é um caso típico de metalinguagem. O processo de produção da arte é explicitado. Os códigos linguísticos se auto mencionam o tempo todo.

Durante todo o filme, é evidente que existe uma história de um livro e outra do próprio filme, porém, a mistura homogênea de ambas é oficializada nos momentos finais da obra, nos quais os enredos encontram-se em tempo, em sentido e em espaço, até que personagens de ambos os meios vivem uma só trama.

Cada elemento do filme-barra-livro carrega em si um conjunto de significados emblemáticos. Para exemplificar, o sobrenome de Harold, traduzido para o português,  é torcicolo. A inferência que fiz é que o protagonista tinha  um incômodo que o impedia de viver plenamente. Outra leitura é que, sofrendo de torcicolo, Harold não pode movimentar perfeitamente a sua cabeça. Ou seja, o giro de sua cabeça é tolhido pela dor, o que o impede de olhar para outras direções; uma metáfora para a forma como ele rege a sua vida: estaticamente, como se usasse uma viseira, sem grandes aspirações.   

Outro traço ímpar do filme é apresentar uma narradora onisciente, ou seja, que não participa da trama, e, logo depois inseri-la como personagem fundamental da história. Ao colocar Eiffel como personagem, o espectador acompanha a trajetória dela em busca do final para a vida de Harold, protagonista de filme e livro.

Por fim, essa peculiaridade mais estranha do que a ficção de descobrir que tinha sido inventado por uma autora, acabou salvando a vida de Harold em dois sentidos: ele não somente realmente sobreviveu ao destino que e escritora tinha imputado a ele, como também passou a viver sua vida literalmente, humanamente, prazerosamente, ao invés de automaticamente e sem empolgações ou emoções, como antes.


Não fosse por todas essas características inóspitas e complexas, o filme ainda atrairia pelos diálogos inteligentes e um humor que vai do sofisticado pelo sarcasmo e ironia ao pastelão.  

Friday, February 7, 2014

Busca eterna por mentes inquietas



Assim como não existe marinheiro de primeira viagem, não existe vitorioso de primeira tentativa. São raríssimas as pessoas que conquistam o que almejam como num passe de mágica. O que é importante, não vem facilmente. O que tem significado, demora a ser conseguido.

Talvez um dos poucos mandamentos da deontologia do jornalismo pelo qual balizo os meus princípios pessoais é o que afirma que a prática desta profissão é o compromisso com a verdade ou, acreditar no que se diz e, consequentemente, no que se faz. Tenha isso como talismã, aplique em todos os âmbitos da vida e ‘aponta para a fé e rema’.

Neste caminhar trôpego - ora tropeça e cai, ora levanta e vai - não há do que reclamar. É assim que se faz a vivência e acumula experiência; assim se constrói um sistema empírico de aprendizado muito útil para aplicar em situações vindouras, praticando a chamada redução de danos, bem como o impedimento de repetição dos erros. Como bônus, essas passagens servem  também para tornar-te um alguém mais interessante... que seja.

A persistência, virtude tão exaltada como identidade da sociedade brasileira, responde a uma linha tênue circunstancial que pode ser definida por dois ditados populares: enquanto um diz que ‘água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’, noutro extremo, há o que dita que ‘dar murro em ponta de faca’ é, obviamente, uma postura inócua.

Tantas divagações talvez por demais abstratas, vieram de reflexões após assistir à apresentação ‘Nômade’, da Cia Mário Nascimento, em cartaz no CCBB de BH, dentro da programação do Verão de Arte Contemporânea (VAC).

O espetáculo versa, utilizando quase por maioria expressões corporais, sobre a inconstância humana em suas buscas incessantes e variadas. A trilha sonora sem vocal envolve o espectador, criando uma atmosfera de tensão e atenção aos próximos passos que serão estampados naquele palco sem nenhum artifício de cenário.

Como sempre, ouso escrever inferências minhas. Desta vez, apreendi que toda aquela representação de um povo aborígene em busca de seu lugar seja uma metáfora do que a vida é, ou deveria ser: uma caçada implacável e randômica por nosso espaço no mundo, para que também possamos encontrarmo-nos dentro de nós mesmos. 

A música da vez veio a calhar, título e conteúdo: Nômade


Friday, December 20, 2013

Prazer em ver





A Cia Luna Lunera emplaca mais um sucesso de público com a montagem da peça ‘Prazer’, que está em último fim de semana da temporada de apresentações no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Confesso que a minha motivação de assistir à peça foi a palestra que vi, dias atrás, ministrada por Odilon Esteves, um dos protagonistas de ‘Prazer’. Apesar de ter sido discutido, no encontro com o ator, as particularidades do tema ‘a construção de personagem’, ao fim, Odilon comunicou que estaria em cartaz na capital mineira com esta montagem da Luna Lunera e projetei na peça a excelente impressão que tive da palestra.

‘Prazer’ correspondeu às expectativas. Abordando um assunto que pode se tornar um entediante-mais do mesmo-dos clichês, a peça usa de situações prosaicas e mundanas para emergir o tema tão recorrente do valor às coisas simples da vida sem a pretensão de parecer um medíocre auto-ajuda.

Com a participação de quatro atores - dividem o palco com Odilon, Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza – o espetáculo é um drama com pitadas cômicas. O universo interno dos personagens está em cena, sendo expostas as suas angústias, frustrações, desesperanças, porém, permeadas pelos alívios cômicos que pululam do palco e a capacidade de resiliência dos personagens, que enfretam circunstâncias adversas naquele tempo espaço retratado.

No meu entendimento, o cenário dialoga com a mensagem que o texto da peça quer transmitir. Tudo lá está colocado de maneira que os atores consigam pegar com facilidade; tudo ao alcance de suas mãos. Assim como a felicidade deve ser: tangível. Ouso inferir também que a permanência dos personagens no palco durante toda a peça, sem sair de cena em nenhum instante sequer, seja para também incutir nos espectadores a ideia de que não devemos sair de cena da nossa própria existência.

A peça também ganhou minha admiração ao inserir duas músicas de Los Hermanos. Em um primeiro momento, o personagem Camilo cita versos da canção ‘Pois é’ . Noutro, o personagem de Odilon, em momento que mescla catarse e extravasamento, dança ao som de ‘Quem sabe’ . Completando as intertextualidades com obras que aprecio em alto grau, li que a montagem foi inspirada em trecho do livro “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, um dos meus favoritos de Clarice Lispector. Uma combinação excelente e bem sucedida.

Não poderia deixar de citar também a encantadora declaração de amor semiótica que Camilo faz para a personagem de Isabela Paes, utilizando de objetos que traziam significantes importantes à felicidade dos dois como casal para denotar o amor que dedica à ela.

Por fim, impossível não abrir um sorriso sincero na última cena da peça em que os quatro tomam banho de mangueira e dançam ao som de ‘Viva La vida’, de Cold Play. Escolha óbvia, porém, acertada. 

‘Prazer’ é um simulacro de um recorte da vida real,  em momentos que vão da decadência à ascensão, que inspira: é combustível poético e reflexivo.

Wednesday, September 4, 2013

Os filmes imitam o maniqueísmo da vida


Outro dia, numa maratona de filmes a que me submeti sozinha, assisti a dois longas metragens que me fizeram pensar no quanto eram díspares por apresentar universos simbólicos tão opostos e no quanto esses mundos enunciavam sobre as nossas próprias realidades.

Enquanto em um – Terapia de Risco (EUA, 2005), direção de Steven Soderbergh – a realidade fílmica era constituída por um leque de personagens no qual todos apresentavam uma integridade moral e humana absolutamente permeável; no outro - O Fabuloso destino de Amelie Polain (França, 2001), direção de Jean-Pierre Jeunet - o universo simbólico era composto por personagens dotados de certa aura de ingenuidade que beira a mais inatingível (?) utopia da realidade.

Em Terapia de Risco, até quem parecia o mais nobre dos personagens, vivido por Jude Law, acaba a estória como um psiquiatra que utiliza das chancelas profissionais inerentes à sua função para se vingar de uma ex-paciente que tentou lhe prejudicar. No outro extremo, até o menos benevolente personagem de Amelie fecha a trama como alguém que tinha aprendido a ser (um pouco) melhor.

Em breve resumo, para nivelar o raciocínio aqui proposto, Terapia de Risco é um enredo que trata do opaco mercado dos remédios de tratamento para a cura da depressão. Assim sendo, desvela todas as teias de relações, mais referentes a poder e dinheiro do que a preocupações com a saúde, que esse tema envolve. Em consonância a tal contexto, os momentos cênicos que abarcam iluminação, cenários e movimentos de câmera instigam no espectador as mais sombrias e angustiantes sensações.

Por outro lado, Amelie, a personagem principal que nomeia o longa, tocada por uma epifania mais mundana do que transcendental - por mais paradoxal que essa definição acabe sendo -, compreende que deve mudar a realidade que a rodeia , criando situações que façam as circunstâncias da vida de seus conhecidos adquirirem contornos mais coloridos. A grande contradição de Amelie se forma devido à sua completa disposição para arquitetar acontecimentos que promovam melhorias na vida dos outros contraposta à absoluta parcimônia, que beira a inércia, quando o assunto é a busca de sua própria felicidade. Para mim, essa é a principal característica incongruente da personagem que dá o verdadeiro fôlego ao filme.

Alinhada a essa temática pueril, a textura do longa francês nos apresenta cenários coloridos em uma bela fotografia, cujas cenas têm um ritmo rápido e montagem dinâmica.

Como semelhança, as duas tramas têm a fidedignidade aos universos simbólicos que propõem representar. Em ambas, os personagens são redondos e bem desenhados, e, por isso mesmo, instigantes. A comparação desses filmes também se faz relevante porque os dois sublinham bem as evidentes diferenças que existem entre o cinema europeu e o norte americano.

Ative-me a ser rasa quanto à análise e exposição sinóptica dos filmes para dedicar mais à comparação desses que podem ser dois mundos aplicáveis à realidade de cada um de nós. Em qual universo você prefere fazer uma imersão? A vida é sempre o produto de suas escolhas. 

A minha indicação musical da vez é proposital: evidencia em qual universo simbólico eu decidiria viver: