Friday, August 14, 2015

Agora é a era dela



Nossa vida tem certos marcos. É irrefutável a verdade absoluta de que há algo acontecendo a todo tempo, porém, algumas conjunturas delimitam inequívocas eras dentro de nosso tempo de existência.

Por exemplo, quando um escritor se propõe a elaborar uma biografia de uma personalidade, a redação e pesquisa são realizadas sobre recortes da vida do objeto, demarcam-se importantes momentos e o trabalho é feito baseado nesse mosaico de diferentes realidades de tempo e espaço.

É sobre essa peculiaridade existencial, de uma personagem escolhida, que esse artigo trata. Vou me ater aos últimos 365 dias que consistiram numa era.

Embora o que vem a seguir preceda o período estabelecido acima, é justamente o que o desencadeou e faz-se importante.

Era uma vez uma jovem que se perdeu dentro de si mesma.

O mal do século, que não escolhe a quem tomar para si e que não está no controle de quem é ‘atacado’. A depressão a prendeu em seus perniciosos tentáculos. De início, gradualmente e despercebido, depois, rápida e vorazmente. Ela, seus genes, o ambiente e suas conexões neuroquímicas. Apatia!: Era a sua postura com relação ao trabalho, à profissão que tinha escolhido, aos amigos que a rodeavam, à família, ao presente e, por corolário, ao futuro. Mas principalmente com relação a si mesma. Não se julgava merecedora da vida. Pior, achava que aquilo era um castigo de sei lá o quê, já que não acreditava mais em nenhum ser supremo. A vida era o nada. E o nada era insuportável. E tudo que ela fazia, sempre no piloto automático, era inócuo.

Acorda, pensa em todas as tarefas do dia, reclama. Levanta, toma banho. Profere algumas rabugices, engole-as com o suco matinal. Senta-se à frente do computador, lê os emails e pendências do dia, acha tudo uma bela porcaria. Mas faz. Porque deixar de trabalhar nunca foi uma opção. Fim de expediente. Hora do terceiro turno na pós graduação. Tem ótimas ideias. Não dá prosseguimento a nenhuma. Estanca-se. Porque nada vale a pena. Mas continua frequentando as aulas. Porque parar de estudar nunca foi uma opção.

Encontra-se com amigos. Lamenta a vida, as decisões, as circunstâncias, a fome na áfrica, as guerras civis, as epidemias. Murmura e lança falas de efeito pessimista. Coloca-se como lixo humano. Não por querer se vitimar, mas por acreditar piamente nos impropérios que diz.  E pior, mas, principalmente, acredita também que isso tudo que grudou na sua mente - e que dita suas sinapses - é permanente. Mas talvez a sua circunstância existencial tenha passado velada para muitos. Mesmo os mais próximos podem não detectar, pois, por fora, ela se esforçava em expressar a mesma normalidade divertida de sempre.

Como muleta, mal sabendo que foi o catalisador de sua problemática, apaixona-se. Insiste. Cede. Insiste de novo. Engana-se. Cede. Insiste. Pensa estar num relacionamento que pode ir para frente e salvá-la daquela atmosfera de auto-degradação. Maior de seus erros: projetar em alguém uma potencial felicidade. Maior de seus pecados: não enxergar que não passava de um passa tempo deveras descartável. Ela, uma jovem sincera, dedicada e intensa. Ele. Sempre optou, deliberadamente, ser o mesmo nada de tudo da sua vida.

Fim da linha. Em seu âmago amargo não encontra doçura. Perde a consciência quase que diariamente. E só gasta sua energia planejando como colocar o ponto final nesta tortura interna.

Sucumba-se ou reaja! Com um ultimato de ordem cósmica, ela atendeu ao segundo imperativo. É hora de assumir o real mal que a acomete e buscar eliminá-lo, antes que o vice-versa aconteça. Inversão de hábitos, guinada de pensamentos e imersão em si mesma. Com a inescapável ajuda da indústria farmacêutica.

A cura se espelha na patologia: de início, gradualmente e despercebido, depois, rápida e vorazmente. Agora é a era dela e ela escolheu viajar.

Aí começam os 365 dias atrás.

Fim de férias. Volta à vida. Ou melhor. Fim de férias. Outra vida.

Com uma nova mentalidade como estandarte: a alegria é a coisa mais séria da vida; precisou atravessar o Brasil para entender que a felicidade não está no destino, mas na jornada; e que nada que te faça sorrir em paz vem de fora, mas do lado de dentro.

Imbuída de inspirações filosóficas, que tanto leu para ter combustível para seguir, descobriu que abandonou uma personalidade simpatizante – que baliza sua conduta nas respostas às emoções dos outros -, para adotar, com propriedade, uma personalidade sistematizadora – que se dedica a desnudar as peculiaridades e belezas que o mundo esconde.

Agora é a hora e a era dela. O panorama é outro porque seu paradigma mudou. Os êxitos são inevitáveis e se acumulam desde então.

Na semana passada, ela teve alta absoluta do psiquiatra. Ao se despedir, o médico a perguntou: o que você pode fazer depois de superar isso tudo?

Entendendo que quem passa por isso é capaz de aplicar o real significado da vida, em todas as instâncias - do prosaico ao transcendental -, ela então prometeu que, por meio de minhas palavras, contaria essa experiência ao mundo, pois entende a relevância dessa exposição, para que outras possam se refletir nela e desenhar suas novas eras.

Thursday, August 13, 2015

Tratado do saber viver – um verbo em consequência do outro

Olhar e realmente enxergar.
Ouvir e realmente escutar.
Falar e realmente dizer.
Ler e realmente entender.
Estudar e realmente saber.
Visitar e realmente conhecer.
Dançar e realmente extravasar.
Lutar para realmente conseguir.
Agir para realmente impressionar.
Avistar para realmente alcançar.
Provar e realmente experienciar.
Sentir para realmente significar.
Ficar para realmente permanecer.
Sorrir e realmente felicitar.
Ser para substancialmente existir.
Sucumbir à essência e complexidade da vida; para realmente viver.

Wednesday, April 22, 2015

O livro da verdade perdida

Era apenas mais uma entrevista com um personagem para construir uma boa matéria a ser entregue no trabalho. Acabou sendo uma bela e instigante história encontrada e a descoberta para apreciação de mais uma forma de fazer arte e produzir cultura. A minha pauta consistia no seguinte: fazer algumas perguntas para divulgar um evento de promoção da leitura, engendrado por uma senhora.
Mesmo estando de folga – recesso de feriado – peguei meu caderninho e minha caneta (não sou muito afeita a gravar entrevistas, gosto de anotar porque assim o texto já vai se desenhando em minha cabeça), e fui até à casa daquela que seria a minha fonte.
Começamos o nosso bate-papo e a senhora foi me entretendo facilmente com a explicação detalhada de como funciona a iniciativa que gerou o evento: há mais de 20 anos, em 1992, ela tinha descoberto que trazia em si o dom da oratória: sabia contar histórias e estórias de forma envolvente. Como boa escritora que é, um assunto puxava o outro, que desencadeava um terceiro.
Foi quando ela começou a me contar como aconteceu o seu noivado, anos atrás, que me perdi no enredo que ela narrava com intensidade e nostalgia.
Antes eu costumava pensar que, nos tempos de outrora, aqueles casamentos que aconteciam de maneira meteórica eram intempestivos e precipitados. Hoje, embora ainda ache que as coisas eram feitas de forma apressada e mediante pressão familiar e social, tento pensar na parte que também explica um pouco a mentalidade da época: as pessoas tinham mais honra e dignidade.
Pois bem, a senhora e seu ex noivo são um exemplo do paradigma daquela era.
Seus olhares se entrecruzaram num casamento de parentes em comum. Durante a festa de celebração do matrimônio, conversaram como velhos conhecidos, ou melhor, como recém apresentados, ávidos para saber um pouco mais, ou tudo, um sobre o outro. Na mesma noite, o rapaz, mais velho que a senhora então moça, lhe propôs um namoro, que teria que ser levado à distância, pois a moça, mineira, teria que suportar o trabalho dele, que o alocou no Ceará. Porém, para firmar compromisso, ele garantiu que em seis meses estaria de volta para dar-lhe a aliança de noivado e, mais um semestre depois, estaria pronto o casamento. Feliz e encantada, ela aceitou na hora.
Foram meses de troca de cartas poéticas, de se conhecerem mais a fundo e de se apaixonarem. Tudo acontecia como num romance, orquestradamente.
Como ocorre com milhões de almas amantes, que sofrem um baque imprevisto, às vésperas do matrimônio, baseada numa simples resposta que o noivo dera aos tios mais velhos, a moça decidiu não mais se casar. Por aquelas infelizes palavras, toda a imagem que ela havia construído de seu amor tinha sido manchada, desmoronando os planos feitos.
Desesperado com a decisão da moça, o rapaz voltou do Ceará definitivamente, pensando que, sanado o problema da distância, ela reataria. Nada feito. Na verdade, eles não mais se falaram e o moço nunca ficou sabendo as reais razões que levaram ao rompimento.
Como naquela época não tinha facebook ou instagram, ela nem mesmo postou qualquer indireta para que ele pudesse entender as entrelinhas.Como a vida não para para curarmos nossas dores de cotovelo, os caminhos dos dois tomaram rumos completamente diferentes.
O ponto final  dessa relação será posto agora, após tantos anos. A senhora, já bem resolvida, faz, do que lhe deu fôlego para continuar, o meio pelo qual revelará esse segredo que guinou sua trajetória ao terreno do imprevisto. Num livro já escrito, porém não publicado, ela, utilizando metáforas e outras figuras de linguagem, externa o que guardou há tempos.
Adianto, apesar de arrependimentos e da fantasmagórica pergunta ‘e se?’ que a acompanha, ela conseguiu se tornar o que julgava ser impossível caso tivesse consumado o casamento.
Quando a senhora concluiu a narrativa, percebi que tinha largado a caneta e protagonizado uma daquelas imersões que só acontecem quando estamos lendo um livro ou vendo um filme que sejam excepcionais a nosso entender.
Aquela entrevista não foi somente boa para que eu concluísse uma demanda de trabalho, também abriu os meus sentidos para a arte da contação de histórias. Uma das mais antigas formas de expressão cultural do mundo. Não me lembro de ter sido envolvida assim por um caso contado pessoalmente. Na verdade, são raras as vezes em que consigo abstrair de tudo ao redor, ou dos pensamentos incômodos que às vezes invadem a cabeça de todos nós e nos desvia a atenção do que merece. É mágico estar totalmente conectada a uma história ou estória, que sejam.
Outro estranhamento que me acometeu trata da minha aversão (não sei bem desde quando) a romances melódicos. Nada contra os apreciadores, mas, nos últimos tempos, todos os filmes ou livros que vi e li nada tinham de histórias de amor, não desse tipo de amor. Eu optava por obras cuja a história de dois amantes não era o mote, melhor ainda se não fosse nem o plano de fundo.
Talvez eu passe a direcionar meus olhares a essas narrativas sensíveis. Ou não. Pode ser que apenas essa, em especial, tenha me tocado a ponto de querer compartilhar com vocês.
Ao fim, o que penso, e talvez vocês também, é: o principal interessado no conteúdo do livro encontrará a verdade perdida que mudou a sua vida?

Tuesday, March 31, 2015

Defenestrando males tácitos

Defenestrando males tácitos 


Numa época em que boa parte da população brasileira - não somente parcela de cidadãos que faz panelaço em suas varandas gourmet -, se reúnem em grandes mobilizações sociais (?) a fim de pedir o impeachment da presidente Dilma Roussef, certos de que estarão banindo do mais alto grau administrativo da república brasileira um mal maior, vou me dedicar a dissertar sobre como é possível promover uma melhoria inimaginável na vida, apenas se livrando de miudezas imbuídas de um prejuízo velado a você mesmo. 

Abrindo aqui parênteses para deixar claro que não tenho menor intuito de me posicionar quanto a estar do lado dos que foram às ruas, dos que criticaram os que foram às ruas ou ainda dos que estão em outro caminho diferente dos dois grupos.

Retomando... não é preciso, para a tão sonhada leveza do ser (tão sonhada que intitulou um daqueles Best-sellers de auto ajuda) de que algo de grandes proporções nos acometa para que, como consequência inevitável, nossa vida se reoriente.

Muitas vezes, não é necessário que reinventemos a roda. Para que conquistemos a tal paz interior, que, a cada vez mais tem estado no cerne de anseios da sociedade contemporânea, basta pensar com razoabilidade.

A panaceia do mundo, salvas as devidas proporções, reside no mero auto conhecimento acompanhado de um poder de análise.

Somos capazes de apontar diversos males do universo, aqueles que atingem multidões e provocam mazelas em todo um povo e uma época. Mas talvez, se solicitados, não sabemos sinalizar os nossos pequenos vícios que geram moléstias individuais e até coletivas. A nossa capacidade de nos fazer mal é muito maior do que os danos que um terceiro pode nos causar. Essa potencialidade negativa nos passa despercebida. Mais perigosa, pois tácita.

Portanto, DEFENESTRE!

Elimine o que não é produtivo, engraçado, pacificador, tranquilizante, provocador de risos, edificante, elucidativo. Jogue para longe o que te induz a pensar que és menos do que realmente é.

Como aquela obsessão que você tem de postar selfies, quase implorando por curtidas; não é isso que vai te fazer se sentir querido. Ou quando você publica todos os momentos que você julga imperdíveis aos seus contatos, acompanhados de hashtags mirabolantes (infeliz mecanismo de comunicação das redes sociais que teve sua razão totalmente diluída nas inutilidades dos usuários); isso é o que você demonstra virtualmente, mas não é o verdadeiro panorama de sua vida.

Ou quando você insiste em sair com aquela turma que te faz se sentir inferior, sob qualquer que seja aspecto; não são eles os seus amigos que entendem o real conceito de amizade. Ou no trabalho, quando você acredita nos que maximizam seus erros e tornam seus feitos como coisas pífias; não são esses o que vão te dar um feed back certeiro de sua vida profissional.

Ou quando você se anula para poder agradar seus familiares; não é essa a aprovação que você precisa. Ou quando você projeta seus sentimentos e todos seus esforços em tentar fazer alguém feliz numa pessoa que mal sabe quem é você e que te coloca em órbita, fora de todos os círculos de sua vida; essa não é, nem de longe, a pessoa a quem você deve entregar o melhor que guardou de si.

Auto sabotagem. É isso. Ceder a todos essas imposições do imaginário coletivo – e de seu próprio – como as situações supracitadas. É como você boicotar a si mesmo. Não é difícil entrar nesse redemoinho pernicioso. Também não é fácil compreender que você está nessa situação e, menos ainda, se livrar desse imbróglio silencioso.

Nessa mesma toada, vivia Holden Caulfield, o protagonista de ‘O apanhador do campo de centeio’ (J. D. Salinger), um adolescente norte americano, aborrecido e rebelde pela causa obrigatória de ser assim, naquele contexto em que vivia – a discordância era característica intrínseca ao jovem da época.  O descontentamento que sentia em relação à sua vida, principalmente em relação aos pais, nada mais era do que a sua mania vazia de contestar por contestar.

Na mesma armadilha secreta caiu Jerry Falk, personagem vivido por Jason Biggs, no longa metragem ‘Igual a tudo na vida’, de Woody Allen. O jovem se via preso em duas amarras que tolhiam todo o fluxo de sua trajetória: não conseguia se desapaixonar da temperamental e leviana Amanda (Christina Ricci), nem largar o empresário bufão Harvey (Danny DeVito) que cuidava da sua carreira. O paradoxo era que, temendo sofrer de amor e ter fracasso na vida profissional, Jerry vivia nesse emaranhado cíclico: sofrendo de amor e sendo um fracasso, sem ter consciência disso.

Portanto, o primeiro dos males a ser eliminado é o tácito.

Tuesday, November 25, 2014

Grata serendipidade


Dos hermanos argentinos, um conto de fadas atualizado: com os aparatos e mentalidades que os novos tempos trouxeram. Medianeiras (Gustavo Taretto, 2011) é uma crônica moderna sobre as relações amorosas dos tempos atuais.  Moderna na sua sincronia temporal, mas também pela forma como versa a estória do encontro de um par, depois de muitos desencontros quando eram só um.

Esteticamente primoroso, o longa-metragem parece ter sido inspirado no livro Amor Líquido, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Ambas as obras abordam os contornos obtusos e superficiais que as interações humanas têm adquirido. Tanto na literatura quanto no cinema, autor e diretor imputam essa nova tendência ao advento das novas tecnologias, que criaram e popularizaram as demonizadas redes sociais. A leviandade comportamental e a fragilidade das bases das relações podem até ter sido influenciadas por esses avanços, mas não se pode transferir às máquinas a culpa de atitudes e posturas completamente (des) humanas.  

O filme dos nossos vizinhos – que também não ganharam a copa no Brasil - traz à tela uma incontestável aula semiótica e metafórica. Bastante simbólico é o perfil do protagonista Martin. Vivido por Javier Drolas, o personagem trabalha no conforto do seu apartamento, como desenvolvedor de sites. Além de instrumento de trabalho, Martin tem o computador como meio de vida. Através dele, o jovem faz tudo o que (acha) que precisa: compra, paga contas, se informa, joga e bate-papo.

Medianeiras tem dois personagens como núcleo principal. Além de Martin, bastante presente também no enredo é Mariana (Pilar López de Ayala), uma arquiteta que se ocupa em decorar vitrines. Nesse momento, vale mencionar as imagens em time-lapse que remontam a construção de uma metrópole, no caso, Buenos Aires. A agilidade das cenas sugerem também o resultado disso: tão rápido se faz, mais veloz se desfaz. Os fios, que sujam os céus, na ideologia, deveriam servir para deixar as pessoas mais ‘conectadas’, porém não interligam nada nem ninguém, apenas impõem uma distância que não deveria existir.

Outra excelente metáfora visual e reflexiva consiste no ofício de Mariana. Ali, vestindo manequins, ela está num lugar tênue: nem dentro da loja, nem na rua; ela vive naquele espaço, onde está somente ela e os bonecos. Tal como na sua existência: ela passa a vida dentro de seu apartamento, sozinha, como se ali pudesse se ‘proteger’ da realidade. Sempre numa total ausência de vigor e animação, tal como os manequins.

Elemento chave para a compreensão da estória é o livro preferido de Mariana. A personagem guarda com carinho e zelo um daqueles conjuntos de páginas no qual, em cada uma, é preciso saber ‘Onde está o Wally?’. Ironia que só se completa no desfecho do filme, Mariana somente não destrinchou uma figura: ‘Wally urbano’.

Antes de chegar ao ato final, vale mencionar a cena em que o encontro de Mariana e Martin começa a ser ensejado. Os dois começam a conexão devido às medianeiras, título do longa. Conceito também vindo da arquitetura, medianeiras são os vãos entre blocos prediais onde não são construídas janelas. Contrariando a lógica, os protagonistas decidem abrir janelas naquelas paredes cegas, e, com elas, passam a enxergar um mundo que desconheciam. Um de frente para o outro.

Como o início do filme já denota, Martin e Mariana irão ficar juntos. Mas não é esse desfecho já explicitado que garantiu ao filme o prêmio de melhor longa-metragem, em Gramado. A temática da narrativa já carrega, por si só, grandes doses de relevância, pois trata da paradoxal solidão num mundo onde os avanços acontecem, em sua teoria, para aproximar as pessoas. A retratação tão profunda e representativa dessa característica inerente à sociedade moderna, junto a uma montagem de cenas ágil, mas com trilha sonora melancólica, já fariam da obra um excelente enredo, propulsor de pertinentes reverberações acerca de questões incontestavelmente atuais.

Porém, o que dá o toque de excelência à produção de Gustavo Taretto é o 3º ato. De sua janela, Mariana avista o horizonte, mas, ao fixar o olhar em um ponto, (tal como fazemos para achar o personagem Wally) eis que ela decifra o enigma que a acompanha desde criança: num cantinho da calçada está Martin, sua alma gêmea encomendada desde o início do filme, vestido com uma camisa de listras largas vermelhas e brancas. Ela encontrou o Wally. 

 * Serendipidade: descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.


Thursday, October 30, 2014

Do lado de dentro

Resiliência. Desde que conheci o significado dessa palavra, introjetei-a no meu imaginário, sem me desapegar dela. Usaria quando fosse necessário. Era o meu curinga. E todo ser humano que se deixa ser humano vai precisar recorrer a esse imponente vocábulo em determinada(s) etapa(s) da vida.

O senso comum que dita que a nossa felicidade é conquista individual, talvez seja uma das únicas verdades absolutas da vida. Ser feliz tem como lastro movimentos muito mais internos do que externos.


Para absorver bem os pulsos positivos que os acasos da vida nos oferecem, o nosso introspectivo deve estar afiado. Assim como a mãe precisa estar preparada para gestar um bebê; como a terra deve estar arada para que as raízes cresçam; como a vela do barco deve estar na posição certa para chegar ao destino almejado.

Nessa mesma lógica, nós precisamos estar com o coração limpo e leve, com a mente em plena atividade, com as sinapses acontecendo de forma efetiva e harmônica para que, consequentemente, as boas possibilidades que a vida nos proporciona sejam apreendidas com todo fulgor. O sorriso é nossa grande assinatura, mas é bom lembrar que, os sinceros, que estampam nosso rosto, vêm do lado de dentro.

Imbuída da frase que eu mesma fiz para ser meu talismã – nunca estou sozinha, tenho minha cabeça e meu coração – busquei nas minhas referências exemplos - ficcionais ou não - que endossassem todo essa delonga de raciocínio. Me lembrei de vários filmes aos quais assisti, livros que li, músicas que ouvi e, em vários casos, reconheci peculiaridades que aproximaram personagens e eu líricos da minha idiossincrasia.

Para indicar alguns: Sofia, que tinha um mundo todo dentro de sua imaginação (O mundo de Sofia – Jostein Gaarder); Andy Dufresne (Tim Robbins), de Um sonho de liberdade (1994) que aturou anos numa prisão, onde ficou, injustamente, sofrendo mazelas de alto grau, porque tinha dentro de si utopias tangíveis. Ou ainda o protagonista do fantástico ‘Peixe grande e suas histórias maravilhosas’ (2003 – Tim Burton), que, em suas fantasias, vivenciava seus mais valiosos sonhos.

A mistura dos conceitos resiliência e felicidade neste texto foi proposital. São termos que tem relação sucessiva: primeiro a resiliência, depois a felicidade, embora os dois também possam caminhar lado a lado.


 Dica musical da vez: Mantra - Nando Reis 

Wednesday, August 13, 2014

Relativizar é preciso


Se eu pudesse dar um conselho a todos vocês, não seria ‘Use filtro solar’, pois não sou o Pedro Bial. Minha admoestação seria: não faça das palavras ‘nunca’ e ‘sempre’ vocábulos de uso para as suas falas. Esses dois advérbios, na maioria das vezes, fazem de nós mentirosos irremediáveis.

Pois o que achamos ser, pode não ter nada a ver com o que realmente é. O universo que nos habita só tem uma regra: todas as afirmativas dependem de ponto de vista, de contexto em que estão inseridas e da bagagem do opinante. As fronteiras que separam dois extremos são linhas extremamente tênues.

Tudo – e neste tudo abrange tudo e o todo mesmo - depende da interpretação que se faz, podendo esta variar de um extremo a outro numa facilidade incrível. As impressões sobre o mundo, as coisas, as situações, as pessoas, os conceitos etc, são pontos subjetivos, fincados num terreno vulnerável. Por isso, os contrastes e discrepâncias tão comuns na vida.  

Para ilustrar essa alternância de polos e caminhando para o âmbito do cinema,  a classificação de gêneros de filmes também é passível de leituras. Produções categorizadas como drama clássico, podem facilmente ser chamadas de dramalhões ou melodramas; o terror mais horripilante pode pecar pelo excesso e punir para o lado do burlesco, virando uma comédia de mau tom; e há quem diga que as mais agitadas obras de ação são entediantes. Assim como o chique se torna brega; o carinhoso se torna pegajoso; o perto também é longe; o irretocável, cheio de defeitos e lacunas; a eficiência vira o despreparo; e o fato, boato.

Tais divagações introduzem muito bem um paradoxo que se singulou em dois episódios dos últimos dias.

Apesar de entender o assunto como de suma delicadeza e sensibilidade, impossível não estranhar dois profissionais, que fizeram da comédia a via para ganhar dinheiro, cometerem suicídio - o pior ato contra si mesmo. Os falecimentos de Robin Willians e Fausto Fanti são, pessoalmente, lamentáveis. Cada um, ao seu talento e guardadas as proporções, constitui o meu universo de personagens referenciais.

Robin Willians me arrancou risadas não só em diversos papeis de comédia como também em suas entrevistas sempre descontraídas e bem humoradas. O ator também me inspirou e incitou reflexões em trabalhos como o psicólogo Sean McGuire, de Gênio Indomável e o professor entusiasta das ideologias libertárias, em ‘Sociedade dos Poetas Mortos’. E ainda mais paradoxal foi a interpretação de Robin Willians em ‘Patch Adams - o amor é contagioso’, encarnando um personagem que revigorou milhares de corações de espectadores, promovendo verdadeira aula de valorização da vida.

Os que nos fazem rir podem ter a tristeza dentro de si. Assim como a essência da figura do palhaço, que faz graça para esconder sob maquiagens e piadas as fragilidades que os habitam. Parece que estão fadados a um destino traçado por um alguém que preza pela ironia.

Em outra instância, mas ainda com relação aos dois casos supracitados, quanto mais se reverbera o existencialismo, confrontando-o com o contexto da realidade atual, maior chance de flertar com a depressão. Isso explica a doença, o incontestável mal do século, acometer grandes gênios da humanidade. Soa como incoerência, mas é a vida como ela é.

Nesse universo de correlações difusas, de certezas contestáveis, de desconstrução de verdades absolutas, o melhor é colocar um óculos que maximiza o lado otimista das coisas e seguir com um sorriso estampando o rosto; o riso alegra a alma e os entornos. O pranto só serve para chorar e gastar lágrimas.

Hino guia da realidade vigente para ouvir diariamente: Bola pra frente - Maria Rita

Vídeo do Palhaço Gozo, não foi porque ele morreu que assisti ao vídeo, sempre revisitava esses quadros no sense.